{"id":2617,"date":"2024-06-12T20:25:42","date_gmt":"2024-06-12T18:25:42","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/?post_type=panel&#038;p=2617"},"modified":"2024-08-09T11:27:01","modified_gmt":"2024-08-09T09:27:01","slug":"cidades-africanas-abordagens-decoloniais-a-processos-e-fenomenos-da-urbanizacao-contemporanea","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/cidades-africanas-abordagens-decoloniais-a-processos-e-fenomenos-da-urbanizacao-contemporanea\/","title":{"rendered":"13. Cidades africanas: abordagens decoloniais a processos e fen\u00f3menos da urbaniza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea"},"content":{"rendered":"<p>O nosso futuro \u00e9 urbano. Quando foram lan\u00e7ados os Objectivos para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel previu-se que em 2050 dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial habitar\u00e1 em cidades. A urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de transforma\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, espacial, econ\u00f3mica, ambiental e sociocultural das sociedades, atrav\u00e9s do aumento e movimento populacional; da transi\u00e7\u00e3o de meios de subsist\u00eancia agr\u00e1rios para economias monet\u00e1rias baseadas no com\u00e9rcio, servi\u00e7os ou ind\u00fastria; do aumento da dist\u00e2ncia entre os lugares de extra\u00e7\u00e3o dos recursos, do seu consumo e da gest\u00e3o dos res\u00edduos resultantes; da expans\u00e3o de assentamentos e da aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas e infraestruturas; da transi\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es e identidades \u00e9tnico-familiares para socialidades heterog\u00e9neas e cosmopolitas (Satterthwaite &amp; Tacoli, 2003; Jenkins, 2013; Na\u00e7\u00f5es Unidas, 2018). Estes processos aconteceram gradualmente ao longo da hist\u00f3ria humana, desde o in\u00edcio da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e da sedentariza\u00e7\u00e3o, consolidando-se durante a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Em meados do s\u00e9culo passado come\u00e7ou a acelera\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da urbaniza\u00e7\u00e3o das sociedades no chamado \u201cSul Global\u201d, a partir de cidades ancestrais e coloniais, que se tornaram capitais dos novos estados independentes e cresceram exponencialmente, e de centros urbanos que acolheram o \u00eaxodo rural produzido por lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional, programas socioecon\u00f3micos de ajustamento estrutural e pela abertura global \u00e0 economia de mercado. Por isto se considera que vivemos na \u201crevolu\u00e7\u00e3o urbana\u201d (Lefebvre, 1970).<br \/>\nNo continente africano, os processos de urbaniza\u00e7\u00e3o ocorreram em contextos hist\u00f3rico-geogr\u00e1ficos espec\u00edficos, pelo que embora semelhantes \u00e0s cidades em todo o mundo, os centros urbanos africanos exibam caracter\u00edsticas peculiares decorrentes de legados coloniais, pr\u00e1ticas neoliberais de extrativismo e industrializa\u00e7\u00e3o limitada (Fay &amp; Opal, 2000; Anderson et al, 2013). O aumento acelerado das popula\u00e7\u00f5es urbanas, a informalidade e a migra\u00e7\u00e3o circular, a interdepend\u00eancia com os territ\u00f3rios rurais adjacentes, as rela\u00e7\u00f5es sociais impregnadas de ruralidade e as formas h\u00edbridas de governan\u00e7a entre autoridades costum\u00e1rias e institucionais caracterizam estes processos de urbaniza\u00e7\u00e3o (Pieterse &amp; Parnell, 2014; Pieterse, 2017).<br \/>\nContudo, o estudo da forma\u00e7\u00e3o e desenvolvimento das cidades surgiu formalmente a partir de fen\u00f3menos de urbaniza\u00e7\u00e3o observados na Europa e na Am\u00e9rica do Norte a partir do s\u00e9c. XIX, consequentes da industrializa\u00e7\u00e3o e crescimento econ\u00f3mico, do \u00eaxodo rural e do surgimento da burguesia e do proletariado como novas classes sociais. A urbaniza\u00e7\u00e3o euro-americana foi tomada como paradigma do &#8220;desenvolvimento&#8221; e da &#8220;modernidade&#8221; urbanas, e a racionalidade, a efici\u00eancia, e mais recentemente, o desenvolvimento &#8220;verde&#8221; e &#8220;inteligente&#8221; tornaram-se condi\u00e7\u00f5es para o &#8220;sucesso&#8221; urbano, comparativamente ao &#8220;resto do mundo&#8221; (Robinson, 2006). Este eurocentrismo, baseado na diferen\u00e7a, na separa\u00e7\u00e3o e na hierarquiza\u00e7\u00e3o, materializou-se em pressupostos normativos sobre \u00ab as outras cidades \u00bb como lugares problem\u00e1ticos de caos e fracasso, recusando as suas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas, desenvolvimentos alternativos e modernidades originais (Simone, 2004).<br \/>\nA sociologia urbana positivista procurou formular teorias generaliz\u00e1veis e prever desenvolvimentos futuros para as sociedades urbanas, utilizando modelos matem\u00e1ticos e an\u00e1lise estat\u00edstica para testar hip\u00f3teses (Koch &amp; Latham, 2017, eds.). Esta abordagem quantitativa das cidades como redes de infraestrutura, burocracia e tecnologia negligencia as suas dimens\u00f5es qualitativas, sensoriais e vividas; ignora as for\u00e7as estruturais que moldam as cidades \u2013 capital, classe e pol\u00edtica \u2013 nos seus contextos territoriais e hist\u00f3ricos, e os seus produtos de fragmenta\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o espacial e injusti\u00e7a social, especialmente para os habitantes pobres e minorias \u00e9tnicas (Mbembe &amp; Nuttal, 2004; Koch &amp; Latham, 2017, eds.). Mas ao ver as cidades como resultado de intera\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e institucionais tamb\u00e9m se ignoram outros tipos de divis\u00e3o al\u00e9m da classe \u2013 como ra\u00e7a, religi\u00e3o e g\u00e9nero \u2013 e desvalorizam-se as iniciativas dos urbanitas que co-criam a cidade, vistos como v\u00edtimas de for\u00e7as estruturais; a governan\u00e7a formal \u00e9 apenas um lado da vida urbana, pois as redes informais de intera\u00e7\u00e3o desempenham um papel fundamental na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, na resolu\u00e7\u00e3o de problemas e na cria\u00e7\u00e3o de oportunidades (Simone, 2004).<br \/>\nPara al\u00e9m disso, sociedades anteriormente colonizadas n\u00e3o podem ser totalmente compreendidas sem abordar os impactos do colonialismo, sobretudo ao n\u00edvel da produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento. Assim, acad\u00e9micos urbanos contempor\u00e2neos reivindicam as &#8220;outras cidades&#8221; como igualmente v\u00e1lidas para forjar teoria urbana, pois em cada cidade s\u00e3o observ\u00e1veis caracter\u00edsticas comuns de urbaniza\u00e7\u00e3o e globaliza\u00e7\u00e3o, em diversos n\u00edveis e escalas (Robinson, 2006). Urbanistas interdisciplinares prop\u00f5em compara\u00e7\u00f5es horizontais em vez de hierarquiza\u00e7\u00f5es verticais para apreender os motores da (trans)forma\u00e7\u00e3o urbana &#8211; como as cidades s\u00e3o feitas e vividas pelos seus habitantes nas suas vidas materiais, nos seus significados subjetivos e intera\u00e7\u00f5es coletivas; com os seus desafios di\u00e1rios e as estrat\u00e9gias que definem para super\u00e1-los (Myers, 2001; Parnell &amp; Pieterse, 2016; Patel, 2016). Esta cr\u00edtica questiona modelos, teorias e m\u00e9todos de investiga\u00e7\u00e3o ex\u00f3genos pouco adequados a contextos de governan\u00e7a fr\u00e1gil, irregularidade de dados, grandes car\u00eancias humanas e seguran\u00e7a inst\u00e1vel de muitas cidades globais. M\u00e9todos colaborativos, interdisciplinares, comparativos e mistos de co-produ\u00e7\u00e3o de conhecimento podem abranger as complexas dimens\u00f5es quantitativas e qualitativas do urbano e criar pontes entre acad\u00e9micos, decisores pol\u00edticos, profissionais e urbanitas, para estimular o desenvolvimento urbano positivo. Vozes n\u00e3o acad\u00e9micas do cinema, arte, fotografia, jornalismo e literatura devem ser aceites como v\u00e1lidas para analisar, teorizar e comunicar a cidade. Acad\u00e9micos-ativistas contempor\u00e2neos advogam pela &#8220;descoloniza\u00e7\u00e3o&#8221; da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, transitando do &#8220;extrativismo&#8221; acad\u00e9mico para a colabora\u00e7\u00e3o, cientes das din\u00e2micas de poder entre pesquisadores e participantes e dos produtos cient\u00edficos convencionais que as refor\u00e7am (Parnell &amp; Oldfield, 2014, Eds.; Gubrium &amp; Harper, 2016 ; Marrengane &amp; Croese, 2020, Eds.).<br \/>\nUm exemplo desta cr\u00edtica \u00e9 o construto de Southern Urbanism, formulado por acad\u00e9micos do African Centre for Cities da Universidade de Cape Town (Pieterse, 2015; Schindler, 2017), a partir da r\u00e1pida urbaniza\u00e7\u00e3o dos continentes africano e asi\u00e1tico: teorias enraizadas nas diversas realidades (grounded theory) e experimenta\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas interdisciplinares com ferramentas participativas e proposi\u00e7\u00f5es end\u00f3genas s\u00e3o cruciais para produzir conhecimento \u00fatil para o desenvolvimento urbano e a sustentabilidade. Outros construtos decoloniais como Indigenous Knowledge (Owusu-Ansah &amp; Mji, 2013) e Relational Research (Gerlach, 2018) vinculam a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento aos contextos hist\u00f3rico-culturais espec\u00edficos, rejeitando a &#8220;neutralidade objetiva&#8221; do positivismo euroc\u00eantrico e defendendo que o conhecimento tamb\u00e9m \u00e9 experiencial e coletivo. Estes construtos questionam a teoria urbana dominante e s\u00e3o \u00fateis para analisar criticamente as cidades.<br \/>\nNeste quadro te\u00f3rico pretende-se, com este painel, convidar \u00e0 discuss\u00e3o de abordagens decoloniais aos estudos urbanos no continente africano, que analisem fen\u00f3menos e processos espaciais, sociais, econ\u00f3micos, ambientais ou pol\u00edticos da urbaniza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, atrav\u00e9s de diversos conceitos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticas metodol\u00f3gicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo de transforma\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica, econ\u00f3mica, ambiental, espacial e sociocultural das sociedades. No continente africano, os contextos hist\u00f3rico-geogr\u00e1ficos espec\u00edficos destes processos produziram centros urbanos de caracter\u00edsticas particulares. Contudo, os estudos urbanos tomaram as cidades euro-americanas como paradigmas do &#8220;desenvolvimento&#8221; e da &#8220;modernidade&#8221; urbanas, recusando caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas e modernidades alternativas de outras geografias, nomeadamente das cidades africanas. Urbanistas contempor\u00e2neos v\u00eam ent\u00e3o reivindicando estas \u00aboutras cidades\u00bb n\u00e3o s\u00f3 como igualmente v\u00e1lidas, mas sobretudo necess\u00e1rias para forjar e expandir a teoria urbana. Esta cr\u00edtica questiona modelos, teorias e metodologias de investiga\u00e7\u00e3o importados de contextos euro-americanos, pouco adequados aos contextos das cidades globais. Assim, neste painel convida-se \u00e0 discuss\u00e3o de abordagens decoloniais aos fen\u00f3menos e processos urbanos do continente africano, atrav\u00e9s de variados conceitos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticas metodol\u00f3gicas.<\/p>\n","protected":false},"author":61,"featured_media":2618,"template":"","congreso":[92],"class_list":["post-2617","panel","type-panel","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","congreso-ciea12-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/61"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5345,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2617\/revisions\/5345"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=2617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}