{"id":2636,"date":"2024-06-12T20:17:12","date_gmt":"2024-06-12T18:17:12","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/?post_type=panel&#038;p=2636"},"modified":"2024-08-09T15:00:07","modified_gmt":"2024-08-09T13:00:07","slug":"sons-poder-e-conhecimentos-africanos-potencialidades-desafios-e-possibilidades-descoloniais-dos-arquivos-historicos-sonoros-sobre-africa","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/sons-poder-e-conhecimentos-africanos-potencialidades-desafios-e-possibilidades-descoloniais-dos-arquivos-historicos-sonoros-sobre-africa\/","title":{"rendered":"22. Sons, Poder e Conhecimentos africanos. Potencialidades, desafios e possibilidades descoloniais dos arquivos hist\u00f3ricos sonoros sobre \u00c1frica."},"content":{"rendered":"<p>Entre finais do s\u00e9culo XIX e primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, o espa\u00e7o das col\u00f3nias europeias em \u00c1frica tornou-se objeto de diversas expedi\u00e7\u00f5es\/miss\u00f5es cient\u00edfico-culturais que inclu\u00edram a recolha, grava\u00e7\u00e3o e estudo do designado \u2018folclore africano\u2019, como m\u00fasicas e dan\u00e7as \u2018tradicionais\u2019, contos, prov\u00e9rbios, e tamb\u00e9m l\u00ednguas africanas. Estas iniciativas tinham como destino territ\u00f3rios rurais africanos e foram desenvolvidas por v\u00e1rios atores, entre os quais antrop\u00f3logos, arque\u00f3logos, exploradores, funcion\u00e1rios e administradores coloniais, mission\u00e1rios, linguistas ou etnomusic\u00f3logos. No contexto colonial europeu da \u00c1frica Subsariana, estas expedi\u00e7\u00f5es articularam ideais de \u2018autenticidade\u2019, \u2018tradi\u00e7\u00e3o\u2019 e \u2018pureza\u2019, com ideias de ra\u00e7a, de \u2018primitivismo\u2019, de \u2018exotismo\u2019 e de \u2018tribalismo\u2019, conciliando motiva\u00e7\u00f5es filol\u00f3gicas, cient\u00edficas e pol\u00edticas (Nhaitani, 2010; Valentim, 2022). Informadas pelo ide\u00e1rio europeu da miss\u00e3o civilizadora e de salva\u00e7\u00e3o, grande parte dessas expedi\u00e7\u00f5es serviu aos estados coloniais europeus como modo de ocupa\u00e7\u00e3o colonial dos territ\u00f3rios, dos corpos e das mentes. Nos territ\u00f3rios ultramarinos portugueses em \u00c1frica, estas pesquisas foram intensificadas no per\u00edodo a seguir ao p\u00f3s-guerra e ao longo do colonialismo tardio (Valentim, 2022), tendo algumas expedi\u00e7\u00f5es de etnomusicologia prosseguido no per\u00edodo da p\u00f3s-independ\u00eancia.<br \/>\nOs arquivos sonoros produzidos no \u00e2mbito destas expedi\u00e7\u00f5es\/miss\u00f5es a \u00c1frica ainda s\u00e3o sobejamente desconhecidos pela academia e pelo p\u00fablico mais vasto e, acima de tudo, pelas na\u00e7\u00f5es africanas e pelas pr\u00f3prias comunidades rurais que foram alvo destas iniciativas. Atualmente, estes arquivos e fontes documentais associadas (texto, filmes e fotografias) encontram-se, na sua grande maioria, em institui\u00e7\u00f5es localizadas fora dos pa\u00edses africanos onde foram originalmente produzidos, nomeadamente no espa\u00e7o das ex-metr\u00f3poles, nos pa\u00edses que patrocinaram as expedi\u00e7\u00f5es, ou ainda em institui\u00e7\u00f5es especializadas localizadas na \u00c1frica do Sul ou no Gana (Agawu, 2003).<br \/>\nEstes arquivos sonoros africanos s\u00e3o bastante espec\u00edficos e t\u00eam colocado v\u00e1rias preocupa\u00e7\u00f5es a quem tem investigado com eles. Em que condi\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o se encontram? Quem pode ter acesso a estes arquivos? De que formas as vozes, l\u00ednguas, oratura popular, dan\u00e7as e can\u00e7\u00f5es gravadas h\u00e1 cerca de 40, 50 ou 70 anos constituem fontes hist\u00f3ricas importantes para compreender din\u00e2micas identit\u00e1rias coloniais e\/ou da p\u00f3s-independ\u00eancia? Que legados podem ter hoje estes acervos sonoros no seio das comunidades africanas? Quais as perspetivas africanas sobre estes arquivos produzidos sobre \u00c1frica? Como podem contribuir os sujeitos africanos para resignificar estes patrim\u00f3nios sonoros a partir de \u00c1frica?<br \/>\nComo sabemos, os arquivos coloniais fazem parte do que o escritor e fil\u00f3sofo congol\u00eas Valentin Mudimbe designa de \u201cbiblioteca colonial\u201d (Mudimbe, 1988: 175). Na ace\u00e7\u00e3o de Foucault, trata-se de um conjunto de conhecimentos que produziram poder ao definirem, situarem e hierarquizarem as identidades do colonizado e do colonizador, regulando assim sociabilidades e criando subalternidades. Por\u00e9m, se analisados nos seus interst\u00edcios, os arquivos n\u00e3o documentam apenas pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m fragilidades, ansiedades, colaborac\u0327o\u0303es, processos de poder e contra-poder (Stoler, 2010). Para l\u00e1 disso, os arquivos hist\u00f3ricos sonoros permitem ter em conta subjetividades e din\u00e2micas pol\u00edticas reveladas pelas vozes e paisagens sonoras gravadas que, de outra forma, n\u00e3o seria poss\u00edvel aceder (Hoffman, 2023; Valentim, 2022).<br \/>\nPor\u00e9m, torna-se necess\u00e1rio escutar n\u00e3o s\u00f3 os arquivos, mas tamb\u00e9m os testemunhos orais de quem foi int\u00e9rprete das grava\u00e7\u00f5es sonoras, ou seus descendentes. Assim, os arquivos hist\u00f3ricos sonoros permitem aceder \u00e0 dimens\u00e3o ac\u00fastica, ontol\u00f3gica e pol\u00edtica do passado em articula\u00e7\u00e3o com diversas outras fontes, como fotografias, textos e mem\u00f3rias orais, abrindo caminho para revelar narrativas ausentes no arquivo, e interpelando ou complementando as mem\u00f3rias oficiais sobre o passado colonial (Valentim, 2022). A investiga\u00e7\u00e3o com comunidades africanas tem sido feita atrav\u00e9s de metodologias colaborativas e participativas interdisciplinares que articulam trabalho de campo etnogr\u00e1fico, recolha de hist\u00f3ria oral e escuta partilhada dos registos sonoros com as comunidades onde, originalmente, essas cole\u00e7\u00f5es sonoras foram gravadas (ver Hoffmann, 2023; Lobley, 2010; Valentim, 2016, 2018, 2022).<br \/>\nEstes acervos n\u00e3o s\u00f3 remetem a um passado espec\u00edfico como tamb\u00e9m ao presente e ao futuro, no sentido em que influenciam o nosso olhar sobre a hist\u00f3ria e sobre as formas de atuar hoje e desejar outro amanh\u00e3 poss\u00edvel. Considerando que o arquivo hist\u00f3rico \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, e tendo como ponto de partida investiga\u00e7\u00f5es realizadas com arquivos sonoros africanos que foram produzidos no \u00e2mbito de expedi\u00e7\u00f5es\/miss\u00f5es a \u00c1frica, em v\u00e1rios pa\u00edses, tanto no per\u00edodo colonial como logo a seguir \u00e0 independ\u00eancia, este painel convida \u00e0 discuss\u00e3o de v\u00e1rias tem\u00e1ticas, entre as quais: dilemas e desafios da investiga\u00e7\u00e3o com estes acervos; estudos de proveni\u00eancia destas cole\u00e7\u00f5es e arquivos; pr\u00e1ticas de domina\u00e7\u00e3o colonial, viol\u00eancias, agencialidade e estrat\u00e9gias de resist\u00eancia africana; legados coloniais dos arquivos hist\u00f3ricos sonoros, continuidades e descontinuidades; uso de metodologias participativas e colaborativas; processos e pol\u00edticas de patrimonializa\u00e7\u00e3o de culturas expressivas africanas, e sua rela\u00e7\u00e3o com identidades nacionais, culturais e \u00e9tnicas; possibilidades de descoloniza\u00e7\u00e3o e de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste painel discutimos arquivos sonoros africanos produzidos no \u00e2mbito de v\u00e1rias expedi\u00e7\u00f5es\/miss\u00f5es cient\u00edfico-culturais a territ\u00f3rios rurais de \u00c1frica ocorridas durante a ocupa\u00e7\u00e3o colonial europeia e no per\u00edodo a seguir \u00e0s independ\u00eancias africanas. Considerando que estes arquivos sonoros ainda s\u00e3o sobejamente desconhecidos pela academia e pelo p\u00fablico mais vasto e, acima de tudo, pelas na\u00e7\u00f5es africanas e comunidades que foram alvo destas iniciativas, pretendemos visibilizar e compreender estes arquivos e conhecimentos que foram produzidos sobre \u00c1frica. Abordando estes arquivos enquanto pr\u00e1ticas sociais e pol\u00edticas, que hist\u00f3rias estes acervos revelam, escondem ou omitem? Como conhecer e entender estes arquivos a partir de \u00c1frica?<br \/>\nPrivilegiando abordagens interdisciplinares entre a antropologia, a etnomusicologia, a hist\u00f3ria e os estudos p\u00f3s-coloniais\/descoloniais, apelamos a interven\u00e7\u00f5es que discutam criticamente estes arquivos sonoros a partir de diferentes experi\u00eancias e contextos. Por exemplo: pensar nos dilemas e desafios que a investiga\u00e7\u00e3o nestes arquivos coloca; estudar a proveni\u00eancia destas cole\u00e7\u00f5es e arquivos; compreender pr\u00e1ticas de opress\u00e3o colonial e viol\u00eancias, processos de agency e resist\u00eancias africanas; indagar sobre os legados coloniais, continuidades e descontinuidades; demonstrar a import\u00e2ncia de metodologias participativas e colaborativas com as comunidades africanas ex-colonizadas, ou com os seus descendentes e representantes; interpretar processos e pol\u00edticas de preserva\u00e7\u00e3o e patrimonializa\u00e7\u00e3o das culturas expressivas africanas, e sua rela\u00e7\u00e3o com identidades nacionais, \u00e9tnicas e culturais; refletir sobre as possibilidades de descoloniza\u00e7\u00e3o dos arquivos hist\u00f3ricos sonoros e sobre processos de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n","protected":false},"author":67,"featured_media":0,"template":"","congreso":[92],"class_list":["post-2636","panel","type-panel","status-publish","hentry","congreso-ciea12-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/67"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5550,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2636\/revisions\/5550"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=2636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}