{"id":2637,"date":"2024-06-12T20:16:16","date_gmt":"2024-06-12T18:16:16","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/?post_type=panel&#038;p=2637"},"modified":"2024-08-09T15:23:03","modified_gmt":"2024-08-09T13:23:03","slug":"litania-de-vida-estetica-da-morte-real-e-simbolica-na-literatura-mocambicana","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/litania-de-vida-estetica-da-morte-real-e-simbolica-na-literatura-mocambicana\/","title":{"rendered":"23. LITANIA DE VIDA: EST\u00c9TICA DA MORTE, REAL E SIMB\u00d3LICA, NA LITERATURA MO\u00c7AMBICANA"},"content":{"rendered":"<p>DELIMITA\u00c7\u00c3O DO TEMA<br \/>\nA presen\u00e7a do elemento morte na literatura africana de l\u00edngua portuguesa, mais precisamente como elemento real que se adere ao s\u00edmbolo metaf\u00f3rico, \u00e9 marcante na literatura mo\u00e7ambicana. V\u00e1rios autores a tangenciam, dentre eles, Virg\u00edlio de Lemos, Jos\u00e9 Craveirinha, Eduardo White, Carlos Patraquim, s\u00f3 para citar alguns. Vale o destaque para o poeta e prosador Nelson Sa\u00fate (1993, 1999, 2000, 2007) quem, como aduz a professora Carmen Lucia Tind\u00f3 Ribeiro Secco, cria uma \u201c\u2018est\u00e9tica de T\u00e2natos\u2019, trazendo os mortos para dentro de seus versos\u201d (Secco, apud Dopcke, 1998, p. 223), dir\u00edamos que, para dentro da vida, com a delicadeza e a for\u00e7a da literatura que cria a ret\u00f3rica da morte dos \u201cAnos de uma ilus\u00e3o destru\u00edda diante dos nossos olhos por m\u00e3os humanas como as nossas. Anos de uma grande quimera (&#8230;) anos da morte, da viol\u00eancia\u201d (Sa\u00fate, 2000, p. 141). Desde essa narrativa de sobreviventes decalcada na tematiza\u00e7\u00e3o da morte que o painel LITANIA DE VIDA: EST\u00c9TICA DA MORTE, REAL E SIMB\u00d3LICA, NA LITERATURA MO\u00c7AMBICANA se revela como um estudo de e sobre escarifica\u00e7\u00f5es sociais, hist\u00f3ricas, liter\u00e1rias, e, logo, sobre a viol\u00eancia real e simb\u00f3lica, na literatura mo\u00e7ambicana. Nela encontramos \u201cuma deambula\u00e7\u00e3o pela hist\u00f3ria recente de um pa\u00eds rec\u00e9m-chegado ao mundo e de gente que n\u00e3o se demarcou do estado de fantasma\u201d (Couto, apud SA\u00daTE, contra capa, 2007) no plano do liter\u00e1rio, pois, literatura e hist\u00f3ria, sociologia e literatura, por exemplo, n\u00e3o lidam com objetos diferentes, lidam com os mesmos objetos, mas de modo diferente, a palavra. Assim, dialogando com Ana Mafalda Leite (1998), a palavra africana apresenta \u201cO conflito entre o mundo tradicional e o mundo urbano, entre os valores m\u00edticos da cultura camponesa e a fria racionalidade dos acontecimentos b\u00e9licos, caracterizados pela tecnologia sofisticada da guerra\u201d (Leite, 1998, p. 41), melhor, das guerras vividas no espa\u00e7o mo\u00e7ambicano.<br \/>\nNas obras, os poetas possibilitam recuperar, atrav\u00e9s dos \u00edcones das guerras, as viol\u00eancias reais e simb\u00f3licas, as escarifica\u00e7\u00f5es sociais sofridas por Mo\u00e7ambique, e ainda, despertar a consci\u00eancia do sujeito coisificado pelos termos da verdade sobre o sistema colonial: violento, opressor e nefasto com palavras surpreendentes e uma linguagem apurada no sentido do veross\u00edmil \u2013 desde a \u2018margem do sil\u00eancio\u2019 que revela as atrocidades da vida: \u201cA m\u00e3e beijou a p\u00f3lvora\/ no sorriso morto do filho.\/ Despiu a capulana e cobriu-o.\/\/ E depois vestiu as l\u00e1grimas\u201d (Sa\u00fate, 2004, p. 596).<br \/>\nO ESTADO DA ARTE<br \/>\nA literatura mo\u00e7ambicana produzida na d\u00e9cada de 80 apresenta a puls\u00e3o liter\u00e1ria da morte, traduz uma literatura de den\u00fancia, visto que, \u201cA autenticidade de um povo submetido f\u00edsica e culturalmente\u201d, (Cosme, apud Ferreira, 1976, p. 289), vis\u00edvel, aqui, no signo da literatura da t\u00e2natos \u00e9 transmitida, segundo Leonel Cosme, da \u00fanica maneira poss\u00edvel: \u201ca revolta, a que um certo realismo liter\u00e1rio veio dar forma mais sens\u00edvel\u201d.<br \/>\nO presente estudo pretende demarcar a presen\u00e7a dos escritores mo\u00e7ambicanos cuja tem\u00e1tica sobre a morte \u00e9, tamb\u00e9m, uma po\u00e9tica dos sobreviventes, visto que s\u00e3o escritores de clandestinas confiss\u00f5es, criadores de uma literatura denunciadora, impressa no s\u00edmbolo da morte. Essas s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es que nos levam a entender os momentos hist\u00f3ricos e sociais pelos quais passaram os sujeitos africanos quando do dom\u00ednio dos colonizadores. Isto porque, dialogando com (Ricciardi, 1971, p. 80), entendemos que \u201cO escritor \u00e9, pois, um criador, mas, ao mesmo tempo, a sua obra est\u00e1, toda ela, mergulhada no memento hist\u00f3rico que a origina\u201d: uma literatura que revela os problemas e as dificuldades que, ao longo dos anos 80, passaram os mo\u00e7ambicanos.<br \/>\nNesse sentido, nossos olhares, sobre os textos dos poetas e prosadores escandir\u00e1, como a\u00e7\u00e3o e passagem de influxo do hist\u00f3rico para o social e, deste, para o liter\u00e1rio, atrav\u00e9s do saber proporcionado pela sensibilidade lingu\u00edstica e cria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, posto que, \u201capreendemos no todo a sua beleza pr\u00f3pria\u201d (Candido, 2006, p. 30), pois, \u201cH\u00e1 nestas hist\u00f3rias, mortos que n\u00e3o encontram a Morte, homens de luto perp\u00e9tuo que apenas visitam a vida nas cerim\u00f4nias f\u00fanebres\u201d (Couto, apud Sa\u00fate, contra capa, 2007).<br \/>\nOs textos despertam ao enredo tr\u00e1gico que sonda o humano como eterno personagem principal \u2013 a morte. Os autores decalcam o enigma inacess\u00edvel do mist\u00e9rio existencial, perfazem os caminhos do mesmo e sempre transeunte, a morte que p\u00f5e e prop\u00f5e os acontecimentos que sustentam tempo e narrativa como impulsos origin\u00e1rios do existir findo. Problema que \u00e9 revelado, ao leitor, atrav\u00e9s da prosa, quase sempre po\u00e9tica, e da poesia sucinta e objetiva, qual s\u00edmbolo do binarismo: poetas africanos e sujeitos irmanados na literatura elencando a morte como motivo e o motivo como personifica\u00e7\u00e3o dos homens v\u00edtimas da viol\u00eancia real.<br \/>\nNuma perspectiva antropol\u00f3gica, o poeta, ator social, vivifica seus artefatos, como produtos culturais, criando imagens que despertam o sil\u00eancio ao reduplicar a pot\u00eancia do simbolismo: oposi\u00e7\u00e3o e conflito como engajamento pol\u00edtico-liter\u00e1rio. Nessa compuls\u00e3o hist\u00f3rica, resgata as palavras dos escombros do tempo e da mem\u00f3ria para sondar o insond\u00e1vel, traduzindo \u2018o devir mo\u00e7ambicano de forma excepcionalmente comprometida aos fatos do mundo real\u2019. E, desde a\u00ed, h\u00e1 uma dualidade premente, pois, como afirma Pires Laranjeira \u2013 \u201cOs homens que escrevem s\u00e3o os mesmos que pensam e que politicam. E fazem-no em Portugu\u00eas, domesticando a l\u00edngua em fun\u00e7\u00e3o das suas virtualidades e finalidades, criando literaturas nacionais numa l\u00edngua internacional\u201d, (Laranjeira, 1992, p. 14).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O tema da morte \u00e9 exaustivamente trabalhado e discutido por in\u00fameros fil\u00f3sofos e  poetas de todas as na\u00e7\u00f5es e de todos os tempos; no entanto, os poetas africanos de l\u00edngua oficial portuguesa tamb\u00e9m nos despertam a reflex\u00e3o de que \u2013 do sil\u00eancio que as palavras erguem no patrim\u00f4nio do ser, como litania que ausculta os instintos, ao minerar da vida, resta a palavra na viagem inexor\u00e1vel do fim? Da din\u00e2mica interna, real ou simb\u00f3lica da morte,  os poetas calafetam os vazios, os instintos da perda, a aus\u00eancia que se presentifica em po\u00e9tica dilucidada e recuperada como magna da (re)exist\u00eancia do humano. Na litania da morte, na musicalidade dos instintos, no canto f\u00fanebre das ex\u00e9quias, nas elegias da mem\u00f3ria do humano, o \u00eaxtase decanta a \u201csecreta viagem\/ duma ave imagin\u00e1ria\/ em busca do instante\/ onde tudo recome\u00e7a\u201d, (Artur, apud Sa\u00fate, 2004, p. 553): a morte, como tentativa de resposta \u00e0 pergunta inicial. Os poetas lavram o verbo no tempo e no espa\u00e7o da sensibilidade, \u201cporque as armas a fizeram precoce e n\u00e3o natural, afastando-a da concep\u00e7\u00e3o africana de mundo, segundo a qual os mortos ingressam em um outro est\u00e1gio\u201d (Secco, apud Dopcke, 1998, p. 219). Neste painel, aceitamos propostas que discutam n\u00e3o s\u00f3 a concep\u00e7\u00e3o africana de morte entendida como passagem para outra dimens\u00e3o existencial, mas tamb\u00e9m a \u201cmet\u00e1fora da morte\u201d real e simb\u00f3lica no espa\u00e7o\/tempo, na partitura\/canto, no texto\/contexto mo\u00e7ambicano que afirmam: \u201cA morte\/Um jogo, uma pausa, nota. Viol\u00eancia\/T\u00e3o sensual quanto a vida\u201d (Lemos, 2009, p. 214).<br \/>\nPalavras-chave: literatura; Mo\u00e7ambique;<\/p>\n","protected":false},"author":62,"featured_media":0,"template":"","congreso":[92],"class_list":["post-2637","panel","type-panel","status-publish","hentry","congreso-ciea12-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/62"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5555,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2637\/revisions\/5555"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=2637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}