{"id":2719,"date":"2024-06-12T19:59:30","date_gmt":"2024-06-12T17:59:30","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/?post_type=panel&#038;p=2719"},"modified":"2024-08-09T19:12:05","modified_gmt":"2024-08-09T17:12:05","slug":"a-diaspora-africana-e-suas-margens-ancestralidade-cultura-e-religiosidade-no-brasil","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/a-diaspora-africana-e-suas-margens-ancestralidade-cultura-e-religiosidade-no-brasil\/","title":{"rendered":"45. A Di\u00e1spora Africana e Suas Margens: ancestralidade, cultura e religiosidade no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Na abordagem de tradi\u00e7\u00f5es religiosas de origem africana, n\u00e3o faz sentido recorrer \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o. Isto suporia a exist\u00eancia de uma \u00fanica \u00c1frica. N\u00e3o se pode considerar apenas um homem africano, denominador comum, de todos os grupos \u00e9tnicos do continente e \u201caplic\u00e1vel\u201d a todas as regi\u00f5es. Observa-se a exist\u00eancia de tra\u00e7os semelhantes em \u00c1frica, como a percep\u00e7\u00e3o do sagrado em tudo; a tens\u00e3o relacional permanente entre o mundo vis\u00edvel e o invis\u00edvel; entre o mundo dos vivos e o dos mortos; o sentido comunit\u00e1rio de exist\u00eancia; o respeito religioso pelos ancestrais, que vem at\u00e9 os parentais; o cultivo do significado dos sonhos associado \u00e0s diversas pr\u00e1ticas de or\u00e1culo e divina\u00e7\u00e3o. Entretanto, observam-se tamb\u00e9m numerosas diferen\u00e7as: sistema de divindades e suas correspondentes mitologias; iconografias sagradas; interdi\u00e7\u00f5es religiosas e regula\u00e7\u00f5es sociais (inclusive alimentares e sexuais) delas resultantes. Estes aspectos podem variar de uma regi\u00e3o a outra, de uma etnia a outra, de aldeia a aldeia.<br \/>\nNo Brasil, esses elementos da tradi\u00e7\u00e3o africana serviram de matriz na composi\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es afro-brasileiras, formando um amplo repert\u00f3rio m\u00edtico ricamente matizado e produzindo uma consider\u00e1vel diversidade \u00e9tnico-cultural-religiosa. No caso do Candombl\u00e9, estas especificidades correspondem \u00e0s variantes regionais, da presen\u00e7a de divindades relacionadas \u00e0 regi\u00e3o africana de origem, do culto aos antepassados, das pr\u00e1ticas divinat\u00f3rias, dos elementos rituais, do transe etc., componentes das identidades \u00e9tnicas e base de diferencia\u00e7\u00e3o entre as na\u00e7\u00f5es de Candombl\u00e9.<br \/>\nO termo na\u00e7\u00e3o, utilizado como demarcador de fronteiras entre os grupos, n\u00e3o deve ser pensado de forma dissociada de outros setores da vida social (\u00e9tnico, religioso, territorial, lingu\u00edstico e pol\u00edtico), uma vez que a religiosidade se relaciona permanentemente com a vida cotidiana. Isso posto, \u00e9 preciso que se perceba a mobilidade deste termo frente aos diversos significados atribu\u00eddos a ele desde o s\u00e9culo XVII.<br \/>\nPar\u00e9s (2006) aborda o processo da forma\u00e7\u00e3o de na\u00e7\u00f5es de Candombl\u00e9 no Brasil numa perspectiva centrada no \u00e2mbito de uma etnicidade relacional. Inicia sua an\u00e1lise sobre o uso do termo a partir de seu car\u00e1ter operacional, expresso pela forma utilizada por traficantes de escravos, mission\u00e1rios e oficiais administrativos dos estados soberanos europeus, num per\u00edodo em que o termo na\u00e7\u00e3o adquiriu o mesmo significado de pa\u00eds ou reino, quando estes se referiam aos v\u00e1rios grupos aut\u00f3ctones com que se deparavam.<br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o aos estados soberanos, o autor observa que houve na \u00c1frica uma proje\u00e7\u00e3o do contexto europeu da \u00e9poca, que privilegiava um sentido de identidade coletiva baseada na filia\u00e7\u00e3o por parentescos a certas chefias normalmente organizadas no entorno das institui\u00e7\u00f5es mon\u00e1rquicas. Contudo, independentemente dessa proje\u00e7\u00e3o, na \u00c1frica, a identidade do grupo decorria dos v\u00ednculos de parentesco das corpora\u00e7\u00f5es familiares que reconheciam uma ancestralidade comum. A identidade \u00e9tnica ou comunit\u00e1ria estava, portanto, assegurada atrav\u00e9s do culto de alguns ancestrais ou de outras entidades espirituais.<br \/>\nA integra\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios campos de sociabilidade (religi\u00e3o, arte, pol\u00edtica) nos acontecimentos da vida comunit\u00e1ria se dava por meio de um vasto repert\u00f3rio simb\u00f3lico como, por exemplo, as pinturas corporais e as incis\u00f5es na pele (sobretudo no rosto, mas tamb\u00e9m, no bra\u00e7o ou em outras partes do corpo) que relembravam as marcas tribais da \u00c1frica ancestral. O corpo pode ser considerado elemento e forma de perten\u00e7a \u2013 e ao mesmo tempo de diferencia\u00e7\u00e3o, adquirindo tal sentido em fun\u00e7\u00e3o do que se v\u00ea atrav\u00e9s do processo de intera\u00e7\u00e3o com o religioso, em que se encontram os preceitos de purifica\u00e7\u00e3o e preparo do corpo, as interdi\u00e7\u00f5es que dizem respeito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 atividade sexual, at\u00e9 o seu pr\u00f3prio movimento, o ritmo, a dan\u00e7a. A constru\u00e7\u00e3o ritual do corpo e do espa\u00e7o vai se constituir num elemento cultural de diferencia\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o entre as diversas na\u00e7\u00f5es de Candombl\u00e9. Concomitantemente, tamb\u00e9m eram a cidade \u2013 ou territ\u00f3rio de moradia -, bem como a l\u00edngua, considerados importantes fatores para as denomina\u00e7\u00f5es de identidades grupais.<br \/>\nOutrossim, na di\u00e1spora africana, a linearidade hist\u00f3rico-cultural que habitou, durante muito tempo, o imagin\u00e1rio de conceitos como pertencimento, identidade e geografia \u00e9, talvez, um aspecto intrigante. Se pensarmos o quanto esgotadas se tornaram as explica\u00e7\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es entre lugar, posi\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, estas n\u00e3o d\u00e3o conta da ruptura com o territ\u00f3rio, aspecto determinante da identidade at\u00e9 ent\u00e3o. Gilroy (2001, p.13) observa que as culturas do Atl\u00e2ntico negro<br \/>\n[&#8230;] criaram ve\u00edculos de consola\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o do sofrimento. Elas especificam formas est\u00e9ticas e contra-est\u00e9ticas e uma distinta dramaturgia de recorda\u00e7\u00e3o que, caracteristicamente, separam genealogia da geografia, e o ato de lidar com o de pertencer.<br \/>\nA di\u00e1spora sugeriu modos diferentes de ser, fornecendo outras compreens\u00f5es sobre solidariedade, semelhan\u00e7a e rela\u00e7\u00f5es de parentesco. Formas de agenciamentos micro-pol\u00edticos que transversalizam culturas, movimentos de resist\u00eancia e de transforma\u00e7\u00e3o, entre outros processos vis\u00edveis, em uma escala mais generalizante. A pluralidade produzida no Brasil supera a condi\u00e7\u00e3o de lamenta\u00e7\u00e3o social que subjaz a separa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, a brutalidade, a perda: consequ\u00eancias do ex\u00edlio. Para Gilroy \u201c[&#8230;] a aliena\u00e7\u00e3o natal e o estranhamento cultural s\u00e3o capazes de conferir criatividade e de gerar prazer, assim como de acabar com a ansiedade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coer\u00eancia da ra\u00e7a ou da na\u00e7\u00e3o e \u00e0 estabilidade de uma imagin\u00e1ria base \u00e9tnica\u201d (2001, p. 20).<br \/>\nEm tal sentido, os aspectos que a di\u00e1spora apresenta s\u00e3o m\u00faltiplos. No Brasil, a a\u00e7\u00e3o do colonizador europeu frente \u00e0s culturas ind\u00edgenas explica porque cultos como o da Iara, e de tantos outros rituais ind\u00edgenas, n\u00e3o encontraram express\u00e3o na sociedade mais ampla, o mesmo n\u00e3o se pode dizer sobre os cultos africanos. A condi\u00e7\u00e3o de escravo forjou a mem\u00f3ria da terra m\u00e3e, alimentando, significativamente, o legado religioso que, ainda hoje, circula nos terreiros e espraia-se pela sociedade geral: a cren\u00e7a de que a vida \u00e9 o bem supremo. Essa forma de conceber a vida, totalmente diferente da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, presente no Brasil atrav\u00e9s dos ritos, estes, forjados segundo temas m\u00edticos preexistentes.<br \/>\nA condi\u00e7\u00e3o da entidade Iemanj\u00e1, no Brasil, \u00e9 um belo exemplo da forja diasp\u00f3rica, pois Iemanj\u00e1 \u00e9 tida e considerada m\u00e3e das \u00e1guas salgadas pelos fi\u00e9is e adeptos das religi\u00f5es de matriz africana; em \u00c1frica, ela \u00e9 soberana na regi\u00e3o de Egba e cultuada no rio Yemoja. As guerras entre as na\u00e7\u00f5es iorub\u00e1s implicaram no \u00eaxodo dos Egbos em dire\u00e7\u00e3o ao oeste, precisamente Abeokut\u00e1, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX). No Brasil, Iemanj\u00e1 possui a imagem arquet\u00edpica da grande m\u00e3e, de seios fartos, cujas imagens se encontram representadas nos mitos.<br \/>\nSegundo Jung (2008), o arqu\u00e9tipo se configura numa matriz abstrata, energ\u00e9tica, forjada a partir de valores universais pelos homens em sua exist\u00eancia terrena. Assim, explica-se a constante imagem da Grande-M\u00e3e em diversas culturas e \u00e9pocas distintas. A presen\u00e7a desta Grande-M\u00e3e, no Brasil, deu-se atrav\u00e9s de imagens arquet\u00edpicas m\u00faltiplas representadas pelos matizes culturais ind\u00edgenas, africanos e europeus. Tal aspecto contribuiu para a forja de um culto plural que, n\u00e3o necessariamente, correspondesse \u00e0 imagem arquet\u00edpica africana.<br \/>\nOs povos, os mais diversos, sempre constru\u00edram imagens arquet\u00edpicas da grande m\u00e3e. Ela se configura como a m\u00e3e ancestral, espiritual. No caso brasileiro, duas imagens coabitam: Nossa Senhora, dos cat\u00f3licos, e Iemanj\u00e1, dos cultos afro-brasileiros. Parte da popula\u00e7\u00e3o cultua apenas Nossa Senhora; parte cultua Iemanj\u00e1 e outra parte cultua ambas as imagens que se fundem em uma s\u00f3. Isso acontece porque a arquetipologia social est\u00e1 no inconsciente popular, embora as imagens arquet\u00edpicas sejam elaboradas com retalhos dos imagin\u00e1rios das etnias em contato (P\u00f3voas, 2007).<br \/>\nO culto a Xang\u00f4 ocupa lugar central em Oy\u00f3; Oxum \u00e9 marcante em Ijex\u00e1; Oxossi em Ketu; Ogum em If\u00e9, aspecto recorrente com as outras divindades do panteon africano. Em outras palavras, a posi\u00e7\u00e3o ocupada pelas divindades se relaciona profundamente a hist\u00f3ria da cidade onde figuram como protetores. Isto posto, outra no\u00e7\u00e3o emerge, a de que a religi\u00e3o africana est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 no\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. Fam\u00edlia numerosa, cuja origem se d\u00e1 por um mesmo antepassado, que envolve os vivos e os mortos. As divindades em princ\u00edpio seriam um ancestral divinizado, que em vida \u201c[&#8230;] estabelecera v\u00ednculos que lhe garantiam um controle sobre certas for\u00e7as da natureza, como o trov\u00e3o, o vento, as \u00e1guas doces ou salgadas, ou ent\u00e3o, assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como ca\u00e7a, o trabalho com metais.\u201d (Verger, 1996, 18).<br \/>\nLaplantine e Nouss (2002) ressaltam a import\u00e2ncia de considerar as pr\u00e1ticas cotidianas, os rituais, as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e as experi\u00eancias individuais na compreens\u00e3o da mesti\u00e7agem como um processo cont\u00ednuo de intera\u00e7\u00e3o cultural que cria um am\u00e1lgama entre as identidades. A mesti\u00e7agem \u00e9 fruto do encontro, das viagens, onde j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel separar os elementos que se imiscu\u00edram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A proposta do painel \u00e9 discutir como se construiu, no Brasil, uma rede de express\u00f5es religiosas a partir do tr\u00e1fico de negros oriundos de pa\u00edses africanos submetidos a tr\u00e1gicos s\u00e9culos de escraviza\u00e7\u00e3o que marcaram a hist\u00f3ria do Brasil. A di\u00e1spora possibilitou a mesti\u00e7agem de cren\u00e7as e costumes bantos, hauss\u00e1s, iorubas e ind\u00edgenas que originaram vertentes religiosas, tais como: Candombl\u00e9, Umbanda, Pajelan\u00e7a, Tambor de Mina, If\u00e1, Batuque, Jurema, Terec\u00f4, Xang\u00f4 do nordeste e outras. Tais mesclas resultam na incorpora\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios elementos das tradi\u00e7\u00f5es religiosas africanas com pr\u00e1ticas ind\u00edgena, al\u00e9m da influ\u00eancia do catolicismo e do islamismo. Importante entender que esse processo de mesti\u00e7agem n\u00e3o implica na simples sobreposi\u00e7\u00e3o de culturas, mas sim na cria\u00e7\u00e3o de novas pr\u00e1ticas, cren\u00e7as e express\u00f5es culturais que para al\u00e9m de refletir a diversidade e a criatividade resultantes do engendramento e da resist\u00eancia entre diferentes povos, implica sua compreens\u00e3o com o culto \u00e0 natureza e com a comunh\u00e3o de diversas entidades que habitam estes lugares, tais como ancestrais origin\u00e1rios, inkisses, voduns, orix\u00e1s, encantados, ancestrais divinos de uma tradi\u00e7\u00e3o religiosa que se funda  a partir da di\u00e1spora. As identidades \u00e9tnicas forjadas no Brasil se tornar\u00e3o na\u00e7\u00f5es de Candombl\u00e9, perpassando a ideia de Cidade-na\u00e7\u00e3o dentro dos terreiros, moldando alian\u00e7as entre povos, preservando e atualizando ritos de identidade. Assim, na\u00e7\u00e3o para al\u00e9m de diferenciar modos e estilos rituais, indica sobretudo, povos de origem que no Brasil se perpetuaram. Nesta mesti\u00e7agem, ressalta-se contudo, o car\u00e1ter brasileiro \u2013 e, com isso, afro-amer\u00edndio \u2013 pr\u00f3prio da religiosidade afro-brasileira.<\/p>\n","protected":false},"author":115,"featured_media":0,"template":"","congreso":[92],"class_list":["post-2719","panel","type-panel","status-publish","hentry","congreso-ciea12-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/115"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2719\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5809,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/2719\/revisions\/5809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=2719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}