{"id":3492,"date":"2024-06-12T20:21:53","date_gmt":"2024-06-12T18:21:53","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/panel\/respostas-africanas-ao-multilinguismo-em-africa-desafios-desafios-e-oportunidades\/"},"modified":"2024-08-09T13:19:27","modified_gmt":"2024-08-09T11:19:27","slug":"respostas-africanas-ao-multilinguismo-em-africa-desafios-desafios-e-oportunidades","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/respostas-africanas-ao-multilinguismo-em-africa-desafios-desafios-e-oportunidades\/","title":{"rendered":"17. Respostas africanas ao multilinguismo em \u00c1frica: desafios, desafios e oportunidades"},"content":{"rendered":"\n<p><br\/>MULTILINGUALISMO EM \u00c1FRICA: REALIDADES, DESAFIOS E OPORTUNIDADES O multilinguismo em \u00c1frica \u00e9 din\u00e2mico e diversificado. Varia entre regi\u00f5es e pa\u00edses, zonas rurais e centros urbanos, comunidades \u00e9tnicas e lingu\u00edsticas, e entre gera\u00e7\u00f5es. <br\/>As migra\u00e7\u00f5es (trans)nacionais e as situa\u00e7\u00f5es de contacto lingu\u00edstico m\u00faltiplo aumentam a complexidade das realidades multilingues. Neste painel, \u00e9 poss\u00edvel estudar o modo como se estabelecem as normas comunicativas que afectam os c\u00f3digos co-presentes (l\u00ednguas francas, l\u00ednguas veiculares, c\u00f3digos urbanos, etc.), os fen\u00f3menos de contacto e de code-switching, bem como o papel das l\u00ednguas em termos de indexicalidade social e de &#8220;efic\u00e1cia comunicativa&#8221; (Ambadiang 2003). \u00c9 interessante refletir, a partir da teoria e da pr\u00e1tica, sobre as m\u00faltiplas dimens\u00f5es do multilinguismo africano que podem ser interpretadas em termos de escala ou de \u00e2mbito, bem como em termos de adaptabilidade geral, considerada comum aos africanos, e da utiliza\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas espec\u00edficas em situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas (Fardon e Furniss 1993).<\/p>\n\n<p><br\/>REFLEX\u00d5ES TE\u00d3RICO-METODOL\u00d3GICAS Com base no exposto, podemos refletir sobre propostas anal\u00edticas recentes que se articulam em torno de conceitos como repert\u00f3rios lingu\u00edsticos (L\u00fcpke &amp; Storch 2013), pr\u00e1ticas transl\u00edngues (Garc\u00eda &amp; Wei 2014), racializa\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, (des)inven\u00e7\u00e3o da l\u00edngua (Makoni &amp; Pennycook 2007), provincializa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua (Canut 2021). O multilinguismo africano tamb\u00e9m pode ser abordado atrav\u00e9s da gest\u00e3o das l\u00ednguas no espa\u00e7o p\u00fablico, nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social e nas redes sociais. Isto coloca o foco no espa\u00e7o local e nos falantes como agentes situados da sua pr\u00f3pria atividade comunicativa, o que tamb\u00e9m se traduz no planeamento lingu\u00edstico a n\u00edvel subestatal (cf. grupos de discuss\u00e3o da W&#8217;App sobre quest\u00f5es lingu\u00edsticas entre falantes leigos). O objetivo seria mostrar a necessidade de estudos centrados no local, incluindo abordagens etnogr\u00e1ficas (Esene Agwara 2020), e adaptar as teorias, ferramentas e metodologias lingu\u00edsticas \u00e0s especificidades africanas (Mufwene 2020) e talvez mesmo repens\u00e1-las.<\/p>\n\n<p><br\/>POL\u00cdTICAS LINGU\u00cdSTICAS E HERAN\u00c7AS INTERLINGU\u00cdSTICAS Quando v\u00e1rias l\u00ednguas coexistem num mesmo espa\u00e7o, \u00e9 muito prov\u00e1vel que a sua rela\u00e7\u00e3o seja condicionada por rela\u00e7\u00f5es de poder, associadas a diverg\u00eancias de estatuto, reconhecimento e prest\u00edgio (Bolekia Bolek\u00e1 2001; Mufwene 2020; Schlumpf 2024). Em particular, as assimetrias lingu\u00edsticas materializam-se quando as l\u00ednguas oficiais s\u00e3o confrontadas com as l\u00ednguas n\u00e3o oficiais e entre as l\u00ednguas europeias\/(ex)coloniais e as l\u00ednguas ind\u00edgenas. No entanto, a posi\u00e7\u00e3o, os usos e as fun\u00e7\u00f5es de cada l\u00edngua variam de acordo com as circunst\u00e2ncias comunicativas espec\u00edficas (Band 2020).<br\/>Recentemente, a aus\u00eancia generalizada das l\u00ednguas africanas nas pol\u00edticas lingu\u00edsticas de muitos pa\u00edses tem sido discutida como resultado de hegemonias hist\u00f3ricas e ideologias euroc\u00eantricas (Bamgbose 2000; Dambala Jillo et al. 2020). \u00c9 question\u00e1vel se ainda \u00e9 v\u00e1lido utilizar o multilinguismo das sociedades africanas como argumento contra o estatuto oficial das l\u00ednguas ind\u00edgenas em detrimento das l\u00ednguas europeias como alternativas unificadoras (Zeleza 2006: 20). Seria oportuno refletir sobre novas pol\u00edticas lingu\u00edsticas que sejam menos monolingues e hegem\u00f3nicas, pol\u00edticas lingu\u00edsticas da base para o topo (Webb 2009) e a necessidade (ou n\u00e3o) de introduzir as l\u00ednguas africanas nos sistemas educativos. Para al\u00e9m de estarem ligadas \u00e0 cultura, muitas destas quest\u00f5es est\u00e3o ligadas \u00e0 identidade colectiva e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com a identidade individual, dando origem a um repensar da relev\u00e2ncia da unidade lingu\u00edstica para uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p><br\/>L\u00cdNGUAS EM \u00c1FRICA E EUROCENTRISMO Entendemos por eurocentrismo uma atitude que faz da Europa o centro de uma vis\u00e3o do mundo e a coloca no topo de uma hierarquia em que o &#8220;outro&#8221; geogr\u00e1fico e cultural aparece como subordinado ou inferior (Wintle 2021). Em termos lingu\u00edsticos, isto significa que as l\u00ednguas europeias s\u00e3o consideradas superiores \u00e0s l\u00ednguas africanas, o que se verifica no nacionalismo lingu\u00edstico da era colonial e encontra alguma continuidade, em tempos de globaliza\u00e7\u00e3o, no imperialismo lingu\u00edstico. <br\/>De um ponto de vista te\u00f3rico, seria interessante refletir sobre os discursos contra-hegem\u00f3nicos, que, involuntariamente e muitas vezes sem nos apercebermos, podem reproduzir ideias essenciais sobre as l\u00ednguas e a sua rela\u00e7\u00e3o com a identidade e a cultura. A um outro n\u00edvel, o eurocentrismo tamb\u00e9m predomina na lingu\u00edstica, no sentido em que conceitos, teorias e terminologias criados no Ocidente s\u00e3o utilizados para descrever realidades sociolingu\u00edsticas estrangeiras (l\u00ednguas maternas, dialectos, falante nativo, bilinguismo, etc.).\n<br\/>Finalmente, o eurocentrismo tamb\u00e9m se observa na designa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas lingu\u00edsticas (por exemplo, \u00c1frica franc\u00f3fona) e na filia\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas crioulas (por exemplo, f\u00e1 d&#8217;amb\u00f4 na Guin\u00e9 Equatorial como crioulo de base portuguesa) (Mufwene 2020: 293). <\/p>\n\n<p><br\/>IDEOLOGIAS LINGU\u00cdSTICAS E RELA\u00c7\u00d5ES ENTRE L\u00cdNGUA E IDENTIDADE Em contextos multi-\u00e9tnicos, criam-se rela\u00e7\u00f5es complexas entre l\u00ednguas, identidades e afilia\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas. A necessidade de comunicar e a preocupa\u00e7\u00e3o de manter e\/ou tornar vis\u00edvel a sua pr\u00f3pria cultura e identidade nem sempre coincidem; podem conduzir a circunst\u00e2ncias contradit\u00f3rias e exigir uma &#8220;consci\u00eancia intercultural&#8221; (Ambadiang 2003). As ideologias, as atitudes e as representa\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas influenciam a utiliza\u00e7\u00e3o, a valoriza\u00e7\u00e3o e a transmiss\u00e3o intergeracional das l\u00ednguas. Em particular, as l\u00ednguas de heran\u00e7a ou ind\u00edgenas, mesmo que n\u00e3o tenham estatuto oficial ou n\u00e3o sirvam para a comunica\u00e7\u00e3o suprarregional, s\u00e3o elementos cruciais das identidades individuais e colectivas (Bituga-Nchama &amp; Nv\u00e9-Ndumu 2021; Cobbinah 2020).<br\/>A identidade cultural de um povo reflecte-se tamb\u00e9m na sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Fora da \u00c1frica de l\u00edngua \u00e1rabe, as literaturas em l\u00ednguas ex\u00f3genas continuam a predominar, apesar de n\u00e3o serem as l\u00ednguas maternas da maioria da popula\u00e7\u00e3o (Zeleza 2006). No entanto, h\u00e1 tamb\u00e9m apelos a literaturas africanas em l\u00ednguas africanas (cf. Ngugi wa Thiong&#8217;o 1986). A este respeito, comparar os esfor\u00e7os das comunidades lingu\u00edsticas para tornar as suas l\u00ednguas vis\u00edveis com a plasticidade comunicativa (multilingue) que caracteriza os seus membros pode ajudar a aperfei\u00e7oar o estudo das condicionantes necessariamente situadas destas atitudes, que podem ser ideol\u00f3gicas, tecnol\u00f3gicas (acesso \u00e0 escrita e \u00e0 difus\u00e3o), mas tamb\u00e9m simb\u00f3licas e econ\u00f3micas (a l\u00edngua como capital).<br\/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O multilinguismo n\u00e3o \u00e9 certamente a exce\u00e7\u00e3o, mas a regra nas sociedades africanas, e observa-se a diferentes n\u00edveis: social, comunit\u00e1rio e individual. De facto, a \u00c1frica, e especialmente a \u00c1frica subsariana, \u00e9 conhecida como uma das \u00e1reas geogr\u00e1ficas mais linguisticamente complexas e diversificadas do mundo. Esta diversidade lingu\u00edstica implica tamb\u00e9m um enorme dinamismo que n\u00e3o se manifesta apenas na tend\u00eancia para misturar l\u00ednguas, mas tamb\u00e9m no facto de um dos efeitos da mistura ser a emerg\u00eancia de novos c\u00f3digos. O multilinguismo e, associado a ele, o multiculturalismo, s\u00e3o, portanto, caracter\u00edsticas centrais das realidades socioculturais africanas. Este multilinguismo africano pode ser valorizado como um recurso e uma fonte de riqueza, mas tamb\u00e9m pode ser interpretado como um desafio, uma dificuldade ou um problema (Wolff 2016; Wolff 2018). Neste painel, pretendemos abordar o multilinguismo em \u00c1frica a partir de diferentes \u00e2ngulos tem\u00e1ticos, postulados te\u00f3ricos e perspectivas hist\u00f3ricas e geogr\u00e1ficas. Juntos, queremos refletir sobre os desafios e as dificuldades de natureza te\u00f3rica e pr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m sobre as oportunidades e as vantagens que o multilinguismo pode representar para o continente, para as diferentes regi\u00f5es, pa\u00edses, cidades ou comunidades. As propostas podem ser enquadradas ou inspiradas por diferentes disciplinas lingu\u00edsticas (sociolingu\u00edstica, lingu\u00edstica de contacto, dialetologia, an\u00e1lise do discurso, glotopol\u00edtica, etc.), mas tamb\u00e9m podem ser formuladas a partir de abordagens filol\u00f3gicas mais amplas (por exemplo, media e comunica\u00e7\u00e3o, literatura) ou de disciplinas vizinhas que possam contribuir para o tema do painel. Para refer\u00eancia, s\u00e3o propostas as seguintes entradas.<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"template":"","congreso":[],"class_list":["post-3492","panel","type-panel","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3492\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5508,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3492\/revisions\/5508"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=3492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}