{"id":3556,"date":"2024-06-12T20:11:23","date_gmt":"2024-06-12T18:11:23","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/panel\/as-ilhas-canarias-perante-o-dilema-descolonial-repensar-a-africa-a-partir-da-sua-complexidade\/"},"modified":"2024-08-09T16:02:35","modified_gmt":"2024-08-09T14:02:35","slug":"as-ilhas-canarias-perante-o-dilema-descolonial-repensar-a-africa-a-partir-da-sua-complexidade","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/as-ilhas-canarias-perante-o-dilema-descolonial-repensar-a-africa-a-partir-da-sua-complexidade\/","title":{"rendered":"29. As Ilhas Can\u00e1rias perante o dilema descolonial: repensar a \u00c1frica a partir da sua complexidade"},"content":{"rendered":"\n<p>As universidades europeias e espanholas promovem cada vez mais a internacionaliza\u00e7\u00e3o como forma de responder aos desafios de um mundo cada vez mais globalizado (Funda\u00e7\u00e3o CYD, 2023). Entretanto, as liga\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es com as universidades africanas permanecem invis\u00edveis ou carecem de apoio suficiente para a sua concretiza\u00e7\u00e3o. Isto deve-se \u00e0 for\u00e7a com que certas l\u00f3gicas coloniais ainda operam no continente, as quais, a par do extractivismo acad\u00e9mico que opera nos discursos de abertura ao Ocidente e aos seus supostos benef\u00edcios, intensificam os mecanismos de controlo sobre os corpos e os conhecimentos n\u00e3o ocidentais. Como pensar o &#8220;dilema decolonial&#8221; neste contexto? Este painel pretende explorar esta quest\u00e3o, assumindo o lugar que o arquip\u00e9lago das Can\u00e1rias pode desempenhar para tornar vis\u00edvel a diversidade de formas de pensar, saber e fazer que podem ser englobadas na perspetiva descolonial.<\/p>\n\n<p>Procuramos afastar-se dos discursos hegem\u00f3nicos &#8211; como a internacionaliza\u00e7\u00e3o ou a inova\u00e7\u00e3o educativa &#8211; para dialogar com trabalhos que reflictam criticamente sobre o impacto destes dispositivos de saber e poder em corpos e territ\u00f3rios que experimentaram a viol\u00eancia inerente \u00e0s guerras de conquista, epistemic\u00eddio, escravatura e colonialismo no passado e, no presente, a viol\u00eancia gerada pelo neocolonialismo e pelo extractivismo econ\u00f3mico que conduzem a modelos agro-industriais e tur\u00edsticos insustent\u00e1veis, bem como a formas recentes de extractivismo epist\u00e9mico. Em suma, estamos a falar de espa\u00e7os que podem ser ajustados \u00e0 no\u00e7\u00e3o de colonialidade do poder (Quijano, 2000).<\/p>\n\n<p>A colonialidade, tal como foi pensada por An\u00edbal Quijano, defende a ideia de que a ra\u00e7a se torna o principal padr\u00e3o de poder global a partir da expans\u00e3o europeia moderna. Mas tamb\u00e9m tem em conta a &#8220;multi-inser\u00e7\u00e3o&#8221; deste marcador com categorias como classe, g\u00e9nero e conhecimento (Quijano, 2014). Este quadro de an\u00e1lise tem sido alargado por autores como Walter Mignolo, com a sua \u00eanfase na necessidade de articular um &#8220;outro conhecimento&#8221; que favore\u00e7a a desocidentaliza\u00e7\u00e3o e a descoloniza\u00e7\u00e3o do conhecimento (Mignolo, 2015). Ao mesmo tempo, subscrevemos a cr\u00edtica de Ram\u00f3n Grosfoguel \u00e0 epistemologia ocidental e a sua proposta transdisciplinar de articular uma vis\u00e3o do mundo baseada na &#8220;pluriversalidade&#8221; (Grosfoguel, 2022), que segue o caminho anteriormente tra\u00e7ado por Enrique Dussel e a sua ideia de &#8220;transmodernidade&#8221; (1994). Consideramos tamb\u00e9m essenciais os contributos que autoras feministas como Mar\u00eda Lugones (2008), Rita Segato (2013) e Ochy Curiel (2021) t\u00eam dado a esta discuss\u00e3o sobre o alcance da colonialidade.<\/p>\n\n<p>No continente africano, a cr\u00edtica \u00e0 predomin\u00e2ncia da componente ocidental na gest\u00e3o da diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nova. Intelectuais de renome como Frantz Fanon (1967); Kwame Nkrumah (1965); Chinweizu (1987); Ngugi wa Thiong&#8217;o (1986) j\u00e1 problematizaram esta quest\u00e3o nas suas respectivas obras. No entanto, nas universidades europeias s\u00e3o poucos os programas de ensino que incluem as suas ideias e tomam como refer\u00eancia formas n\u00e3o euroc\u00eantricas de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento. Entretanto, assistimos \u00e0 emerg\u00eancia de um interesse renovado pela produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos que respondem a outras genealogias. Isto \u00e9 atestado por investigadores como Ndlovu-Gatsheni (2015, 2018), do Zimbabu\u00e9, nos seus esfor\u00e7os para tornar vis\u00edveis as epistemologias do Sul Global.<\/p>\n\n<p>Neste contexto, as Ilhas Can\u00e1rias destacam-se como um territ\u00f3rio muito complexo, mas tamb\u00e9m como um territ\u00f3rio potencialmente transformador. O arquip\u00e9lago funciona como uma &#8220;fronteira imperial&#8221; (Gil Hern\u00e1ndez, 2022), uma vez que se trata de um territ\u00f3rio administrativamente europeu que, no entanto, se situa no noroeste de \u00c1frica. Por esta raz\u00e3o, a realidade can\u00e1ria partilha alguns dos problemas que afectam o continente, como a sua elevada depend\u00eancia pol\u00edtica, social e econ\u00f3mica do exterior, o risco crescente de sofrer os efeitos mais graves das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e a presen\u00e7a estrat\u00e9gica de diferentes pot\u00eancias no seu territ\u00f3rio por raz\u00f5es de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n<p>Os principais poderes nas ilhas, em Espanha e na Uni\u00e3o Europeia abordam esta complexidade recorrendo a todo o tipo de eufemismos. O seu objetivo \u00e9 contornar o enquadramento problem\u00e1tico das Ilhas Can\u00e1rias tanto na sua realidade geogr\u00e1fica imediata como na arquitetura institucional em que se insere, atrav\u00e9s do reconhecimento do seu &#8220;facto diferencial&#8221;, da sua voca\u00e7\u00e3o &#8220;atl\u00e2ntica&#8221; ou &#8220;tricontinental&#8221; e tamb\u00e9m da sua &#8220;ultraperificidade&#8221; (Gil Hern\u00e1ndez; Fern\u00e1ndez Hern\u00e1ndez e Zelaya \u00c1lvarez, 2023). No entanto, o nosso interesse \u00e9 transcender a tens\u00e3o deste tipo de discursos dissimuladores para possibilitar a emerg\u00eancia de espa\u00e7os de encontro, produ\u00e7\u00e3o e contesta\u00e7\u00e3o que explorem outras formas de conhecimento e de estar no mundo. Esta \u00e9 a perspetiva que utilizamos para explorar as rela\u00e7\u00f5es sociais entre corpos e territ\u00f3rios que acompanham as iniciativas pol\u00edticas e culturais empenhadas em repensar o futuro do mundo a partir da diversidade de horizontes que o continente africano oferece.<\/p>\n\n<p>Quando levantamos esta discuss\u00e3o a partir das Ilhas Can\u00e1rias, estamos conscientes de que para certos grupos sociais, como as mulheres, os migrantes do Sul Global, as massas empobrecidas e exploradas da popula\u00e7\u00e3o, estas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o marcadas por formas de representa\u00e7\u00e3o que geralmente os mostram como v\u00edtimas, mas nunca como pessoas capazes de contribuir com conhecimento e valor a partir das suas pr\u00f3prias realidades (Zelaya, 2023). Assim, embora sejam por vezes chamados pelos acad\u00e9micos a dar &#8220;testemunhos&#8221; das suas experi\u00eancias, raramente s\u00e3o tidos em conta como sujeitos com uma capacidade real de influenciar a sua realidade, cumprindo o papel intelectual de peritos.<\/p>\n\n<p>Em suma, este painel convida aqueles que pensam, investigam e trabalham no tecido social can\u00e1rio &#8211; referimo-nos a pessoas nascidas nas ilhas e no continente africano &#8211; a partilhar a sua vis\u00e3o cr\u00edtica sobre o funcionamento das suas institui\u00e7\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es culturais e colectivos pol\u00edticos. Convidamos todas estas pessoas a apresentar trabalhos acad\u00e9micos, liter\u00e1rios, performativos, audiovisuais, etc., que tentem dar respostas que n\u00e3o escapem ao dilema decolonial que atravessa a realidade das Can\u00e1rias; respostas que enfrentem a complexidade que descreve a sua localiza\u00e7\u00e3o africana, bem como a sua capacidade de gerar transforma\u00e7\u00f5es, aprendizagens e experi\u00eancias que nos ajudem a imaginar outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As universidades europeias e espanholas promovem cada vez mais a internacionaliza\u00e7\u00e3o como forma de responder aos desafios de um mundo cada vez mais globalizado (Funda\u00e7\u00e3o CYD, 2023). Entretanto, as liga\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es com as universidades africanas permanecem invis\u00edveis ou carecem de apoio suficiente para a sua concretiza\u00e7\u00e3o. Isto deve-se \u00e0 for\u00e7a com que certas l\u00f3gicas coloniais ainda operam no continente, as quais, a par do extractivismo acad\u00e9mico que opera nos discursos de abertura ao Ocidente e aos seus supostos benef\u00edcios, intensificam os mecanismos de controlo sobre os corpos e os conhecimentos n\u00e3o ocidentais. Como pensar o &#8220;dilema decolonial&#8221; neste contexto? Este painel pretende explorar esta quest\u00e3o, assumindo o lugar que o arquip\u00e9lago das Can\u00e1rias pode desempenhar para tornar vis\u00edvel a diversidade de formas de pensar, saber e fazer que podem ser englobadas na perspetiva descolonial. \u00c9 por isso que convidamos aqueles que pensam, investigam e trabalham no tecido social can\u00e1rio &#8211; referimo-nos \u00e0s pessoas nascidas nas ilhas e no continente africano &#8211; a partilhar a sua vis\u00e3o cr\u00edtica sobre o funcionamento das suas institui\u00e7\u00f5es, associa\u00e7\u00f5es culturais e colectivos pol\u00edticos. Convidamos todas estas pessoas a apresentar trabalhos acad\u00e9micos, liter\u00e1rios, performativos, audiovisuais, etc., que tentem dar respostas que n\u00e3o escapem ao dilema decolonial que atravessa a realidade das Can\u00e1rias; respostas que enfrentem a complexidade que descreve a sua localiza\u00e7\u00e3o africana, bem como a sua capacidade de gerar transforma\u00e7\u00f5es, aprendizagens e experi\u00eancias que nos ajudem a imaginar outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"author":58,"featured_media":0,"template":"","congreso":[],"class_list":["post-3556","panel","type-panel","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/58"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3556\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5604,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3556\/revisions\/5604"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=3556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}