{"id":3710,"date":"2024-06-12T20:36:22","date_gmt":"2024-06-12T18:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/panel\/tracos-de-um-arquivo-anticolonial-africano-na-peninsula-iberica-1933-1975\/"},"modified":"2024-07-14T17:47:55","modified_gmt":"2024-07-14T15:47:55","slug":"tracos-de-um-arquivo-anticolonial-africano-na-peninsula-iberica-1933-1975","status":"publish","type":"panel","link":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/paineis\/tracos-de-um-arquivo-anticolonial-africano-na-peninsula-iberica-1933-1975\/","title":{"rendered":"3. Tra\u00e7os de um arquivo anticolonial africano na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica (1933-1975)"},"content":{"rendered":"<p>O Estado Novo portugu\u00eas (1933-1974) e a Espanha franquista (1939-1975) partilhavam, para al\u00e9m de uma pol\u00edtica repressiva e ultra-cat\u00f3lica e de um ideal patri\u00f3tico enraizado na matriz imperial da \u00e9poca dos descobrimentos e dos conquistadores, uma auto-representa\u00e7\u00e3o baseada num suposto excepcionalismo que persistiu anacronicamente ap\u00f3s a independ\u00eancia da maioria das antigas col\u00f3nias. Visto de fora, este excepcionalismo era em grande parte real: atraso tecnol\u00f3gico, pobreza, isolamento e m\u00e3o de obra export\u00e1vel. Apesar disso, Portugal e Espanha funcionaram como vizinhos que se viram as costas um ao outro. Os estudos p\u00f3s-coloniais e descoloniais herdaram em grande parte esta indiferen\u00e7a m\u00fatua, confirmando a fun\u00e7\u00e3o legitimadora do passado colonial na ascens\u00e3o de ambos os pa\u00edses \u00e0 categoria de na\u00e7\u00f5es europeias democr\u00e1ticas, modernas e desenvolvidas. Embora existam muitos trabalhos nacionais sobre a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica dissidente em ambos os pa\u00edses durante o per\u00edodo especificado (Abell\u00e1n 1980, Ruiz 2008, Gil 2009, Rojas 2013, Melo 2016, Pi\u00e7arra 2018, Mateo 2020, Larraz 2023, Falconi, 2024, Garc\u00eda 2024), a perspetiva comparativa (Cabrera 2014, Aixel\u00e0-Cabr\u00e9 2024) e, acima de tudo, a quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o africana no desenvolvimento de um contra-arquivo anticolonial permanecem assuntos pendentes.<\/p>\n<p>Em Politics of African Anticolonial Archive (el-Malik e Kamola, 2017), el-Malik define o arquivo anticolonial africano como &#8220;uma cole\u00e7\u00e3o\/coletivo de pensadores que colocaram num \u00fanico quadro um conjunto de ferramentas anal\u00edticas que tradicionalmente n\u00e3o ocupavam o mesmo espa\u00e7o dentro das l\u00f3gicas da colonialidade: pol\u00edtica, governa\u00e7\u00e3o, identidade, arte, poesia, ci\u00eancia social, socialismo, religi\u00e3o, teoria, etc.&#8221; (el-Malik, el-Malik, e Kamola 2017, 49). No caso ib\u00e9rico, vale a pena considerar que a censura e a repress\u00e3o pol\u00edtica agravaram a dispers\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o de um arquivo informal formado por elementos muito diversos, cujo \u00fanico denominador comum seria a oposi\u00e7\u00e3o, a resist\u00eancia ou, no m\u00ednimo, o contraste, em rela\u00e7\u00e3o aos discursos oficiais. Branwen Gruffydd Jones aponta para um arquivo difuso, cuja &#8220;localiza\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 tamb\u00e9m transnacional, espalhando-se por diferentes geografias (Jones 2017, 66). O corpus deste arquivo \u00e9 constitu\u00eddo por m\u00faltiplas formas: discursivas e materiais, pol\u00edticas e po\u00e9ticas, visuais, verbais e de voz. A dimens\u00e3o transnacional reflecte a import\u00e2ncia da circula\u00e7\u00e3o e dos tr\u00e2nsitos como caracter\u00edsticas estruturantes na forma\u00e7\u00e3o da cultura textual e pol\u00edtica do anticolonialismo africano. Mais do que uma forma de recolha de dados, a investiga\u00e7\u00e3o destas caracter\u00edsticas \u00e9 uma forma &#8220;curatorial&#8221; de trabalhar o arquivo, no presente e na Europa, olhando-o mais como um processo do que como um objeto (Jones 2017, 77).<\/p>\n<p>Apesar dos paralelos not\u00f3rios entre Espanha e Portugal, a magnitude do imp\u00e9rio portugu\u00eas em \u00c1frica contrasta com a natureza residual das possess\u00f5es espanholas em \u00c1frica. N\u00e3o podemos tamb\u00e9m esquecer a dimens\u00e3o diacr\u00f3nica do per\u00edodo estudado em ambos os pa\u00edses &#8211; desde a instrumentaliza\u00e7\u00e3o propagand\u00edstica aberta da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica at\u00e9 ao assimilacionismo mais ou menos disfar\u00e7ado (Lusotropicalismo, Hispanidad) &#8211; e as particularidades espec\u00edficas de cada um deles &#8211; o impacto do desenvolvimentismo tardo-franquista. Coloca ent\u00e3o a quest\u00e3o de saber quais s\u00e3o os limites de crit\u00e9rios como a dissid\u00eancia e a clandestinidade quando se estuda um conjunto d\u00edspar de documentos que, na altura da sua cria\u00e7\u00e3o, circulavam e\/ou se relacionavam de formas muito diversas. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ignorar que as opera\u00e7\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o desempenham um papel na constitui\u00e7\u00e3o de qualquer arquivo, criando uma ilus\u00e3o de totalidade e continuidade (Mbembe, 2002, 21), especialmente no caso de discursos indissoci\u00e1veis do contexto autorit\u00e1rio e repressivo em que surgiram. Ou seja, para al\u00e9m de uma dissid\u00eancia direta, h\u00e1 que considerar outras formas de resist\u00eancia mais discretas ou mesmo amb\u00edguas, e ter em conta que a defesa do pacifismo e do antimilitarismo tamb\u00e9m foi considerada uma forma de dissid\u00eancia. Outro aspeto a considerar \u00e9 a compatibilidade do ativismo com a exig\u00eancia Rancieriana: o olhar disruptivo deve ser simultaneamente ideol\u00f3gico e est\u00e9tico (Ranci\u00e8re, 2000).<\/p>\n<p>A partir de uma dupla perspetiva comparativa e transnacional, propomos que o contra-arquivo ib\u00e9rico possa ser investigado a fim de conceber o presente como um arquivo (el-Malik e Kamola 2017, 5-6). O presente em quest\u00e3o \u00e9 o per\u00edodo p\u00f3s-colonial de pa\u00edses europeus como Portugal e Espanha que gerem os seus passados coloniais atrav\u00e9s de modelos de gest\u00e3o da diversidade nem sempre eficazes (Aixel\u00e0-Cabr\u00e9 2018), sabendo que &#8220;a transforma\u00e7\u00e3o do arquivo num talism\u00e3, no entanto, \u00e9 tamb\u00e9m acompanhada pela remo\u00e7\u00e3o de quaisquer factores subversivos na mem\u00f3ria&#8221; (Mbembe 2000, 24), e que o contra-arquivo n\u00e3o est\u00e1 imune \u00e0 quest\u00e3o da &#8220;mercantiliza\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria&#8221; (Mbembe 2002, 25) ou \u00e0 dupla armadilha da nostalgia e da autenticidade (el-Malik e Kamola 2017, 5).  <\/p>\n<p>Esta atividade insere-se no projeto I+D &#8220;Africanos, magrebies y latinos (1808-1975). Negritud, resistencias y desracializacion de elites&#8221; (BLACKSPAIN) (PID2022-138689NB-I00), financiado por MCIN\/ AEI\/10.13039\/501100011033\/ e &#8220;FEDER Una manera de hacer Europa&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este painel pretende abordar os vest\u00edgios do arquivo anticolonial africano na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica durante o Estado Novo (1933-1974) e o franquismo (1939-1975). Estudamos os vest\u00edgios de um arquivo fragmentado e fragment\u00e1rio, quer pelas suas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, quer pela diversidade de materiais que o comp\u00f5em. Em primeiro lugar, abordamos um contexto largamente comum aos dois pa\u00edses, marcado por uma ideologia que combinava a nostalgia imperial e a ideia de excepcionalismo colonial com a austeridade econ\u00f3mica, a emigra\u00e7\u00e3o, o ex\u00edlio pol\u00edtico e o isolamento cultural. Em segundo lugar, a resist\u00eancia contra a domina\u00e7\u00e3o colonial e a constru\u00e7\u00e3o ut\u00f3pica de um futuro africano livre e soberano operam clandestinamente, abrindo espa\u00e7os marginais e dissidentes que enfrentam a censura e a repress\u00e3o pol\u00edtica. Como consequ\u00eancia, esses discursos n\u00e3o se materializam necessariamente em produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. A partir de uma dupla perspetiva comparativa e transnacional, propomos que o contra-arquivo ib\u00e9rico possa ser investigado a fim de conceber o presente como um arquivo (el-Malik e Kamola 2017, 5-6). O presente em quest\u00e3o \u00e9 o per\u00edodo p\u00f3s-colonial de pa\u00edses europeus como Portugal e Espanha, que gerem o seu passado colonial atrav\u00e9s de modelos de gest\u00e3o da diversidade nem sempre eficazes (Aixel\u00e0-Cabr\u00e9 2018).<\/p>\n","protected":false},"author":42,"featured_media":2592,"template":"","congreso":[92],"class_list":["post-3710","panel","type-panel","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","congreso-ciea12-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3710","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel"}],"about":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/panel"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/42"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3710\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4973,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/panel\/3710\/revisions\/4973"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2592"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3710"}],"wp:term":[{"taxonomy":"congreso","embeddable":true,"href":"https:\/\/redestudiosafricanos.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/congreso?post=3710"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}